Na imersão realizada hoje no Ospedale di Villa Igea, em Modena, acompanhamos de perto o fluxo e os processos de atendimento a pessoas idosas com demência e/ou sofrimento psíquico. Trata-se de um serviço de referência no cuidado a pessoas idosas com condições psiquiátricas e neurológicas, oferecendo atenção integral em regime de internação, com exceção das áreas de traumatologia e ortopedia.
O hospital conta com uma equipe multiprofissional altamente qualificada, composta por médicos clínicos, fisiatras, psiquiatras e neurologistas, além de enfermeiros especialistas, fisioterapeutas e técnicos de diferentes áreas. Um dos aspectos mais marcantes observados foi a dinâmica interprofissional consolidada, tanto na organização do cuidado quanto nos processos de gestão. Essa integração se expressa desde o diagnóstico até a condução terapêutica, não apenas para garantir maior integralidade no cuidado às pessoas internadas, mas também para promover uma dinâmica de trabalho mais ergonômica, colaborativa e saudável para os profissionais.
O cuidado às pessoas internadas não se limita ao ambiente hospitalar. A equipe mantém contato intensivo com as famílias, desenvolvendo atividades educativas voltadas à condução do cuidado no domicílio após a alta. O objetivo não é apenas minimizar sintomas e ampliar a autonomia funcional, mas também apoiar familiares e cuidadores na compreensão das transformações que as doenças crônicas impõem ao processo de envelhecimento. Trata-se de um cuidado que reconhece a complexidade da vida cotidiana e a centralidade das redes de apoio no seguimento terapêutico.
Outro elemento relevante é o diálogo permanente com os serviços de base e com o território. O trabalho multiprofissional do Villa Igea inclui apoio técnico e matricial aos serviços comunitários, em lógica semelhante à articulação entre atenção hospitalar e atenção primária no Sistema Único de Saúde (SUS) brasileiro. Essa integração amplia a resolutividade do cuidado nos territórios, inclusive com suporte ao atendimento domiciliar, fortalecendo a continuidade do cuidado e evitando internações desnecessárias.
A vivência na unidade de internação geriátrica para pessoas com distúrbios neurológicos e psiquiátricos foi, sem dúvida, uma aula prática de medicina integral e de cuidado à pessoa idosa, na qual clínica, gestão e território dialogam de forma consistente. A circulação pelos ambientes de internação não reforça a imagem estigmatizada de pessoas sedadas, com baixa autonomia e restritas ao leito. Ao contrário, evidencia que o cuidado multiprofissional qualificado pode fortalecer a autonomia, a funcionalidade e a saúde das pessoas internadas, ao mesmo tempo em que sustenta e amplia redes de proteção à vida.
Essa experiência no Hospital Villa Igea se configura como um dos pontos altos da vivência em cuidados à saúde da pessoa idosa na Itália. Além de permitir análises comparadas com o contexto brasileiro, contribui de maneira significativa para o fortalecimento da formação médica e para a reflexão crítica sobre modelos de atenção às demências, ao sofrimento psíquico e ao envelhecimento em sociedades cada vez mais longevas.
Por Alcindo Ferla e Suzana Funghetto
