O Transtorno do Espectro Autista (TEA) tem ganhado cada vez mais visibilidade, mas o que ainda passa despercebido é que crianças autistas tornam-se adultas e envelhecem, muitas vezes sem acesso a uma assistência especializada ao longo da vida.
Abril Azul, campanha de conscientização sobre o autismo, traz um ponto essencial para o centro do debate, algo que a Rede Geronto já vem pesquisando e destacando em seus estudos: “a autonomia se constrói com apoio”.
De acordo com estimativas da Organização Mundial da Saúde (OMS), cerca de 70 milhões de pessoas no mundo vivem com algum grau de TEA. No Brasil, uma análise do Programa de Pós-Graduação em Ciências da Saúde (PPGCS) da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR), com base no Censo Demográfico de 2022, aponta que aproximadamente 300 mil brasileiros com 60 anos ou mais vivem com autismo, o que corresponde a cerca de 0,86% dessa população.
Abril Azul 2026
O tema de 2026 abre uma oportunidade para que especialistas, pesquisadores, profissionais e a sociedade ampliem o olhar sobre a realidade da pessoa idosa com TEA. Isso porque o envelhecimento tende a intensificar desafios já presentes ao longo da vida, como o risco de isolamento social, dificuldades de comunicação, barreiras no acesso a serviços e a presença frequente de comorbidades, como ansiedade, depressão e doenças crônicas.
Como destaca a campanha, políticas públicas, serviços preparados e redes de cuidado são fundamentais para enfrentar o diagnóstico tardio e a invisibilidade histórica. O autismo só passou a ser mais reconhecido nas últimas décadas, o que faz com que muitos idosos estejam fora das estatísticas formais.
Além disso, o diagnóstico na terceira idade ainda é complexo. Sintomas podem ser confundidos com depressão ou demência, há escassez de profissionais capacitados e faltam protocolos específicos para essa faixa etária.
Para resolver isso, avanços legislativos também começam a surgir. A aprovação do Projeto de Lei 5270/25, de autoria da deputada Duda Salabert (PDT-MG), representa um passo importante com a instituição da Política Nacional de Promoção dos Direitos e Atenção Integral às Pessoas Idosas com TEA, além de promover alterações no Estatuto da Pessoa Idosa e na Lei Berenice Piana.
Entre as medidas previstas estão a adaptação de Instituições de Longa Permanência para Idosos (ILPIs) e a capacitação de profissionais para lidar com as especificidades sensoriais e cognitivas de pessoas idosas autistas.
Rede Geronto
Como uma rede colaborativa especializada em gerontologia, que congrega instituições de ensino superior, pesquisadores e profissionais dedicados à promoção da longevidade com qualidade, a Rede Geronto tem atuado na ampliação desse debate no Brasil.
Ao longo dos últimos anos, a rede vem evidenciando que o envelhecimento no espectro autista exige um olhar multidisciplinar, políticas públicas específicas e, sobretudo, estratégias que garantam autonomia com suporte, princípio central da campanha Abril Azul 2026.
Essa perspectiva também dialoga com experiências internacionais acompanhadas pela Rede Geronto, como as imersões realizadas na Itália. Em iniciativas voltadas ao cuidado de pessoas idosas, especialmente no campo das demências, o país tem se destacado por modelos que integram prevenção, acolhimento e organização de redes territoriais de cuidado.
As lições observadas reforçam que a autonomia, na prática, é resultado de sistemas bem estruturados, com serviços articulados, profissionais capacitados e suporte contínuo às famílias. Esse é um caminho que pode e deve inspirar o cuidado também com pessoas idosas com TEA.
Ao conectar conhecimento científico, experiências internacionais e a realidade brasileira, a Rede Geronto contribui para dar visibilidade a uma pauta ainda invisível, o direito de envelhecer com dignidade, apoio e inclusão em todas as fases da vida.
Por Maurício Pascoal
Fontes: G1 Globo, Agência Brasil e Instituto Longevidade
