Em New Orleans, no Congresso do Colégio Americano de Cardiologia (ACC.26), um dos principais eventos globais da cardiologia, realizado no último mês, a vacinação como estratégia de prevenção cardiovascular, especialmente entre idosos, foi o tema central.
A discussão não é exatamente nova, mas marca uma mudança de posição importante. O que antes era visto como uma medida de proteção contra doenças infecciosas passa a ser incorporado, de forma mais estruturada, como parte do cuidado com o coração.
O próprio American College of Cardiology publicou recentemente um consenso clínico que recomenda a vacinação de adultos com doenças cardiovasculares como forma de reduzir riscos associados a infecções respiratórias, como influenza, Covid-19 e vírus sincicial respiratório (VSR).
Infecções como fator de risco cardiovascular
A base dessa estratégia está na relação já bem estabelecida entre infecções e eventos cardíacos.
Quando o organismo enfrenta infecções como gripe ou pneumonia, ocorre uma resposta inflamatória sistêmica. Esse processo pode afetar diretamente os vasos sanguíneos, aumentar a pressão arterial, alterar a coagulação e sobrecarregar o coração.
Estudos epidemiológicos mostram que o risco de infarto e outras complicações cardiovasculares aumenta nos dias e semanas seguintes a essas infecções. Em pessoas idosas, esse impacto tende a ser mais significativo, tanto pela maior vulnerabilidade imunológica quanto pela presença mais frequente de doenças crônicas.
Quais vacinas entram nessa estratégia
As recomendações apresentadas no congresso consolidam um conjunto de imunizações com impacto direto ou indireto na saúde cardiovascular.
A vacina contra influenza segue como uma das principais, com indicação anual para adultos com doenças cardíacas. A vacina pneumocócica também integra esse grupo, especialmente para prevenir complicações respiratórias que podem desencadear eventos cardiovasculares.
Outro destaque é a vacinação contra o VSR, recomendada para pessoas a partir dos 75 anos ou para adultos mais jovens com condições de risco, como doenças cardíacas. Já a vacina contra herpes-zóster aparece associada à redução de eventos como AVC e infarto, ao evitar a reativação viral e seus efeitos inflamatórios.
A Covid-19 permanece como um fator relevante. Evidências indicam aumento do risco cardiovascular após a infecção, especialmente em casos mais graves, com efeitos que podem se prolongar por anos, onde a vacinação contribui principalmente para reduzir complicações.
Uma mudança de abordagem no cuidado ao idoso
A incorporação das vacinas à estratégia cardiovascular reforça uma visão já consolidada na gerontologia: o cuidado com o idoso não pode ser fragmentado.
Condições infecciosas, cardiovasculares e metabólicas interagem de forma direta, exigindo uma abordagem integrada. Nesse contexto, a vacinação deixa de ser apenas uma medida preventiva pontual e passa a compor o planejamento clínico contínuo.
O próprio American College of Cardiology destaca que consultas em cardiologia são oportunidades para revisar o calendário vacinal e orientar pacientes, ampliando a tomada de decisão compartilhada.
Integração e prevenção como eixo do cuidado
Na prática, esse movimento aponta para a necessidade de atuação coordenada entre diferentes profissionais de saúde. Equipes formadas por geriatras, cardiologistas, enfermeiros e outros especialistas conseguem avaliar riscos de forma mais ampla, atualizar esquemas vacinais e acompanhar a evolução clínica de forma contínua.
Para a população idosa, essa abordagem tem impacto direto na redução de hospitalizações e na preservação da autonomia, fatores centrais quando se fala em envelhecimento com qualidade de vida.
O recado que vem do congresso é objetivo: a vacinação passa a ocupar um lugar mais claro na prevenção cardiovascular. No cuidado ao idoso, isso significa ampliar o olhar e antecipar riscos antes que eles se traduzam em eventos mais graves.
Por Maurício Pascoal
Fonte Veja Saúde
