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Vivência translocal e aprendizagem para os cuidados em saúde nos territórios: combinando os vértices do quadrilátero da formação na saúde

Um grupo de 22 estudantes de medicina brasileiros está na Itália, em Modena e Asti, municipalidades do norte da Itália, para vivências em serviços e pontos de atenção à saúde do idoso e intercâmbio acadêmico e cultural. Esses estudantes são vinculados a diferentes instituições de ensino em diversas localidades brasileiras, de norte a sul, e se conectaram à temática do envelhecimento populacional e o cuidado às pessoas idosas proposta para a vivência translocal, vivenciando o processo de internacionalização e aprendizagem integral sob a forma de imersão nas regiões de Modena e Asti. Esse é, com certeza, um largo passo no sentido de uma formação mais compatível com as necessidades do sistema de saúde brasileiro.

A transição demográfica e o processo de envelhecimento populacional na Itália e no Brasil apresentam tanto semelhanças quanto diferenças marcantes. Em ambos os países, observa-se um aumento significativo da expectativa de vida e uma queda nas taxas de natalidade, fenômenos característicos da transição demográfica. Contudo, a Itália iniciou esse processo muito antes do Brasil, sendo atualmente um dos países com maior proporção de idosos no mundo, enquanto o Brasil ainda está em um estágio intermediário dessa transição.

Na Itália, o envelhecimento da população ocorreu de forma mais gradual e estável, permitindo ao país adaptar melhor a cultura e suas políticas públicas e sistemas de saúde para atender às demandas de uma sociedade envelhecida. Já no Brasil, o envelhecimento vem ocorrendo de maneira mais acelerada, o que impõe desafios adicionais à organização dos serviços de saúde, previdência e assistência social. Além disso, fatores socioeconômicos, culturais e regionais impactam de formas distintas o modo como cada país vivencia o envelhecimento, sendo que, no Brasil, ainda existem grandes desigualdades no acesso aos cuidados e suporte ao idoso, enquanto na Itália há uma estrutura mais consolidada e diversificada de proteção social voltada para essa população.

Portanto, embora ambos enfrentem o desafio do envelhecimento populacional, as respostas e as condições individuais e coletiva de acesso a ações e serviços refletem trajetórias históricas e contextos sociais distintos, influenciando diretamente as estratégias de cuidado e atenção à saúde do idoso em cada território, em diferentes cenários e níveis de atenção. Essa é a questão central que mobilizou a vivência transnacional. Trata-se, portanto, não apenas de uma experiência de formação teórica e abstrata, mas de uma síntese entre a teoria e a prática, desnaturalizando a experiência própria e do contexto onde vive cada participante, expandindo o pensamento com as tensões entre uma e outra realidade. Há pelo menos 30 anos, a integração entre a teoria e a prática, a formação e o trabalho, mobiliza conceitos e formulações sobre as necessárias mudanças na formação médica e dos demais trabalhadores da saúde.

No Brasil, desde os anos 2000, as Diretrizes Curriculares Nacionais (DCN) para os cursos de Medicina e demais cursos da saúde propõem que a formação inclua uma articulação forte e precoce com o chamado “mundo do trabalho”. Na produção epistêmica que orienta as propostas de mudança na formação de profissionais de saúde, o conceito do quadrilátero da formação nos diz que o ensino das profissões deve integrar a gestão setorial, as políticas e iniciativas de atenção à saúde e a participação social, destacando que a aprendizagem não envolve apenas o domínio teórico e disciplinar, mas é necessária uma transição paradigmática. Aprender com o corpo todo e não apenas com a razão, essa é uma formulação do educador brasileiro Paulo Freire e que se atualiza nas orientações das DCN da medicina. Segundo essas referências, para superar a dicotomia formação técnica e formação humanística é necessário aprender a ser um pesquisador de si e do mundo para atuar adequada e oportunamente em territórios onde a produção de saúde é complexa e combina continuidades e também com alguma aleatoriedade. Um bom médico não poderá ser apenas um bom técnico em conteúdos das disciplinas do campo da medicina; também terá que pesquisar e formular novas fronteiras para o pensamento e as práticas. As crises climáticas e os efeitos progressivamente mais fortes em todo o mundo provavelmente são um bom marcador da necessidade de uma atualização ampla para o exercício da medicina que, somado à constante atualização técnica do campo, mostra a relevância de um profissional técnico, humanista e conectado com as questões do seu tempo.

Essa também foi uma ideia que embasou a vivência: expandir e complementar a formação que cada estudante tem na sua instituição e em contato com o seu território, agregando experiências profissionais em outros territórios, no caso o sistema de cuidados às pessoas idosas em territórios onde a cultura do viver em comunidade e com saúde faz parte do cotidiano. Uma vivência translocal agrega à experiência de cada pessoa atributos importantes para a aprendizagem das profissões da saúde, o trabalho em equipe e o entendimento de que o raciocínio clínico deve levar em consideração a realidade do sujeito e das pessoas com as quais ele convive.  A produção da saúde sempre está relacionada a um território determinado e a condições que se repetem em territórios mais amplos, mas também a condições que são singulares. Por isso, a imersão em um sistema com semelhanças e diferenças em relação àquele em que se desenvolve a experiência formativa inicial, agrega muito valor e expande o pensamento sobre o que é possível fazer no próprio território.

Na Itália, o sistema de saúde também é universal, como o Brasil, com financiamento estatal para viabilizar ações e serviços. A dinâmica institucional é um pouco diversa, sendo que na Itália o governo federal faz a reitoria do sistema e as 20 Regiões nas quais se organiza a dinâmica federativa do país, têm relativa autonomia para propor ações, serviços e prioridades. As províncias italianas não têm estruturas de governo e são apenas referências geográficas. As comunas (municípios) não têm atribuições específicas de saúde, mas coordenam o sistema de apoio social, que têm integração tensa e estrutural com o sistema de saúde, especialmente no contexto da saúde das pessoas idosas, das crianças e em relação ao cuidado com doenças crônicas. Vale lembrar que o envelhecimento populacional e as taxas negativas de natalidade ao longo das últimas décadas produziram famílias monoparentais, onde, com alguma frequência, uma pessoa idosa tem como referência de cuidado outra pessoa idosa. O sistema de apoio social cria ofertas de apoio domiciliares e comunitárias, incluindo organizações de voluntários (associações da sociedade civil que têm o estatuto formal de apoiar a vida de pessoas com mais fragilidade, não como ações filantrópicas, mas como ações de responsabilidade cidadã). Na linha de cuidado às pessoas idosas, frequentemente se interfaciam políticas públicas de proteção às pessoas, serviços de saúde regionais, serviços de apoio social das comunas e associações de voluntários.

No Brasil, a dinâmica federativa inclui a União, os 27 estados (incluso o Distrito Federal) e os 5.569 municípios têm funções de reitoria do sistema no seu âmbito. Uma das principais diferenças é relacionada ao provimento de serviços: na Itália, as Aziendas (empresas públicas), credenciadas pelos Governos Regionais, proveem ações e serviços, sendo que poucas ações são produzidas diretamente pelas instâncias do governo. No Brasil, o provimento de ações e serviços é de responsabilidade governamental (União, Estados e, principalmente, municípios), sendo que a provisão é feita diretamente ou por meio de contratos e convênios com instituições privadas. A linha de cuidado às pessoas idosas, no Brasil, é menos diferenciada do que na Itália e, frequentemente, se acopla aos demais serviços, com uma rede de atenção que inclui as unidades territoriais (atenção primária) e serviços ambulatoriais e hospitalares de referência, sobretudo às doenças mais comuns no envelhecimento.

Durante as atividades da vivência, as semelhanças e diferenças em relação à organização e ao funcionamento dos serviços de saúde e em relação à dinâmica de fluxos e ofertas assistenciais têm sido dispositivos importantes para conversas complementares à vivência propriamente dita. Parte importante dos estudantes envolvidos na vivência na Itália já adensou sua escolha pela área de saúde das pessoas idosas ou, o que é bem significativo também, alguns estão reprogramando suas escolhas e, independente da especialidade que escolheram, já enxergam as pessoas idosas como estágio singular da vida. O cuidado às pessoas idosas é complexo por incluir a transformação fisiológica do organismo, com efeitos em sistemas e modos de andar a vida, por incluir transformações associadas à situações crônicas e, talvez ainda mais relevante, por envolver um preconceito social e institucional bem relevante, que interfere nas ofertas de cuidado e por isso a formação em medicina precisa estimular experiências que produzam novos conhecimentos uma vez que o mundo está cada vez mais longevo.

Por Alcindo Antônio Ferla, Maria Augusta Nicoli e Suzana Schwerz Funghetto

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