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“Furar o muro”: Aula Magna em Bolonha discute linguagem, poder e regimes de verdade na saúde coletiva

O quarto dia da Imersão Internacional da Rede Geronto foi marcado por uma Aula Magna de forte densidade política, ética e conceitual no Laboratorio Italo-Brasileiro de Saúde Coletiva, realizada na tradicional Aula delle Colonne, na Via Sant’Isaia, 90. O encontro reuniu pesquisadores, gestores públicos, parlamentares e estudantes em torno do debate sobre governança, linguagem, poder e participação social na saúde.

A abertura foi conduzida por Maria Augusta Nicoli e Alcindo Ferla (Rede Unida), que destacaram o Laboratório como um espaço estratégico de cooperação internacional, produção de conhecimento crítico e articulação entre universidade, território e políticas públicas. A saúde coletiva foi reafirmada como um campo essencialmente político, comprometido com a democracia, os direitos sociais e a pluralidade dos modos de viver.

No seminário central da manhã, Emerson Merhy, médico sanitarista e pesquisador da Universidade Federal do Rio de Janeiro, apresentou a conferência “Como somos governados pelos atos linguísticos das redes sociais e como resistimos governando a nós mesmos”. Em sua fala, Merhy resgatou experiências vividas no Brasil durante a ditadura militar, quando jovens médicos e médicas atuavam em centros de saúde públicos e convidavam a população dos bairros a participar ativamente das decisões sobre o cuidado.

O pesquisador relembrou reuniões comunitárias que originaram o projeto do SUS com centenas de pessoas, realizadas em espaços como igrejas abertas por padres, onde não era necessário se identificar para falar de desejos, necessidades e expectativas sobre as práticas de saúde. Em um contexto de forte controle estatal sobre associações e sindicatos, esses espaços de escuta permitiam o surgimento de ideias muito diferentes das políticas oficiais, revelando uma vida política invisibilizada e profundamente enraizada no território.

Merhy destacou ainda a ousadia de processos em que cada bairro elegia seus próprios representantes da saúde pública, reconhecidos eticamente como verdadeiros governantes locais, o que mais tarde, pavimentou o conceito de controle social na saúde. Em apenas um fim de semana, cerca de 120 mil pessoas participaram dessas escolhas, experiência analisada no Brasil pela cientista social Eder Sader, nos anos 1980, como parte dos novos movimentos sociais. Para o pesquisador, tratava-se de uma disputa de governo e, sobretudo, de regimes de verdade, baseados na vida cotidiana e na participação popular.

Utilizando a imagem de um muro e de um desenho presentes no espaço da Aula Magna, no Hospital Roncato, Merhy conectou essa trajetória à luta antimanicomial, cuja palavra de ordem era “furar o muro”. O muro, segundo ele, simboliza o regime de verdade que aprisiona modos de existir considerados desviantes, enquanto o “furo” representa a passagem e a possibilidade de convivência entre diferentes mundos. “É a construção de um mundo onde todos os outros mundos não fascistas possam conviver”, afirmou.

Encerrando sua reflexão, Merhy alertou para a potência da linguagem como arma contemporânea. Segundo ele, a palavra pode ser mais poderosa que um revólver, pois governa corpos e subjetividades de forma silenciosa, levando muitas vezes à submissão sem que se perceba. No cenário atual, marcado por redes sociais, discursos e algoritmos, a disputa central está na produção de sentidos e verdades. A Aula Magna reforçou, assim, o compromisso da Imersão Rede Geronto e da construção do conhecimento em Rede Unida pelo Laboratório Italo Brasileiro em inovação de práticas de cuidado, educação e governança baseadas na escuta, na pluralidade e na democracia e a preparação para a longevidade.

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